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„Maus“, de Art Spiegelman

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Se você é uma dessas pessoas que acham quadrinhos uma grande besteira, que não pode haver uma história feita em quadrinhos com qualidade literária e que os temas abordados são sempre infantis, tipo „super-heróis“, pare AGORA de ler e pule para outro post.

„Maus“ é uma obra literária fantástica, um relato histórico escrito em formato de quadrinhos, por que não? Vencedora do prêmio Pulitzer, com resenhas altamente favoráveis do Time Out, The times, e do mais conceituado jornal britânico, o Independent.

Bom né? Mas e a história?

„Maus“ conta a história de Vladek Spiegelman, pai do narrador e ilustrador do livro. Judeu polonês, Vladek conta ao filho todos os sofrimentos e privações aos quais foram submetidos durante a Segunda Guerra. A crueldade dos nazistas, os embargos econômicos impostos ao povo judeu e todas as restrições e humilhações estão presentes no relato.

O grande diferencial do livro, e por que não dizer,  seu grande charme é a representação dos seres humanos como animais. Assim, judeus poloneses, como o narrador, seu pai, sua mãe, seus familiares e todos os demais são representados como ratos. Porcos representam poloneses não-judeus. Já os alemães são os gatos da história, sendo que os soldados nazistas são os gatinhos uniformizados, e os americanos são os cachorros.

Fácil de entender a metáfora: rato, gato e cachorro: um é a caça do outro.

Isso até gerou dois momentos muito curiosos no texto: um negro é representado como um cachorro preto e o desenhista fica em dúvida sobre como representar sua esposa, que tinha origem francesa mas havia se convertido ao judaísmo? Seria ela uma lebre? Um sapo? Ou uma ratinha?

Confesso que quando me falaram do livro eu havia imaginado que a metáfora não iria ser tão óbvia, tão direta. Isto não tira o caráter alegório da obra, tão pouco a desmerece ou a diminui. Só tinha a impressão que a alegoria seria mais sutil. Apesar deste comentário, lembro que este fato permitiu uma maior argumentação sobre a obra dentro da obra.

Além da discussão que mencionei acima, sobre a representação da esposa francesa do ilustrador, existe uma passagem brilhante na qual Vladek tenta, sem sucesso, passar por uma barreira nazista disfarçado de polonês não-judeu. O ilustrador desenha um rato com uma máscara de porco, ou seja, um judeu „fantasiado“ de polonês. Uma idéia fantástica, que talvez ficasse mais difícil de entender.

No entanto, o fato que mais me chamou a atenção foi a carga humana da obra.  O livro é recheado de metalinguagem, com discussões sobre como representar esta ou aquela nacionalidade. Mas Art faz questão de relatar que seu pai era um ser falível: sofreu privações inacreditáveis, passou fome e humilhações, foi o alicerce psicológico de sua esposa, defendeu e a protegeu como pode, mas ainda assim era preconceituoso com os negros e possuía diversas características negativas atribuídas aos judeus, como a avareza.

O autor fez questão de construir para o pai um personagem esférico. Mesmo sendo um rato, Vladek é o personagem mais humano do livro: sente tristeza, medo, sendo que não pode demonstrá-lo em diversas ocasiões, compaixão, raiva e amor, muito amor por Anja (pronuncia-se „ânia“). Mas também é irritante, carente, ranzinza.  É um herói. Com diversas qualidades de vilões.

Como você representaria seu pai?

Notas:

Em Lógica e Linguística, uma “metalinguagem” é uma linguagem usada para descrever algo sobre outra(s) linguagens (linguagem objeto). De modo mais amplo, uma metalinguagem pode referir-se a qualquer terminologia ou linguagem usada para descrever uma linguagem em si mesma — uma descrição gramatical, por exemplo, ou um discussão sobre o uso de uma linguagem. (fonte: wikipédia)

Personagem esférico é aquele que se diferencia do personagem plano por ser complexo, com diversas características positivas e negativas, de grande densidade psicológica, capaz de na mesma obra agir de forma contraditória ou mesmo ambígua. Trata-se de uma representação mais fiel dos seres humanos, que possuem diversos conflitos internos e agem de diferentes formas em diferentes ocasiões.  Quando um autor coloca um personagem esférico no texto, ele precisa descrever mais, contar mais sobre sua história e contextualizar seus atos e pensamentos.

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